Segunda redação nota 1000 enem 2020 (O estigma dos doentes mentais)
Maria Júlia Passos, de Niterói/RJ
A obra “Holocausto Brasileiro”, da escritora e
jornalista Daniela Arbex, retrata as péssimas condições do maior hospital
psiquiátrico do país, na cidade de Barbacena. Nesse livro, os pacientes são
tratados por meio de métodos arcaicos e invasivos, desde agressões até choques
elétricos, demonstrando a violência sofrida por indivíduos portadores de
transtornos psíquicos. Assim, além de expor os abusos do sistema de saúde da
época, o texto também é atual, uma vez que o preconceito e a omissão estatal
perpetuam o estigma associado às doenças mentais.
Em primeiro lugar, cabe ressaltar que a
desinformação da sociedade brasileira é o principal catalisador da
discriminação. De fato, o avanço da tecnologia é responsável pela rápida
disseminação de notícias, principalmente no meio digital, mas isso não
significa que os cidadãos se encontram mais conscientes. Dessa forma, mesmo que
diversos estudos atuais comprovem a relevância dos cuidados para com a saúde
mental e a legitimidade dos distúrbios psicológicos, os flagelos da
intolerância ainda se mostram presentes. Consequentemente, os indivíduos com
depressão, ansiedade e outras condições especiais convivem em um ambiente degradante,
o qual é marcado por preconceitos e tabus estruturais, enfrentando
constantemente a invisibilidade social. De acordo com a escritora nigeriana
Chimamanda Adichie, a rotulação das pessoas através de certa característica
física marcante é responsável pela criação de histórias únicas que não
representam a realidade. Nesse viés, ao criar estigmas baseados no estereótipo
de que pessoas com doenças mentais seriam inferiores ou incapazes, a sociedade
míope alimenta uma visão eugenista e tóxica, limitando as diversas
possibilidades de manifestação do ser humano e a importância da pluralidade.
Ademais, a ausência de compromisso do Estado
para com a saúde mental dos cidadãos é outro ponto que fomenta a problemática.
De certo, a falta de incentivos na área da psiquiatria e na acessibilidade é a
realidade enfrentada no país, resultando nos diagnósticos tardios e na própria
exclusão de uma parcela significativa da sociedade. Segundo o filósofo John
Rawls, em sua obra “Uma teoria da justiça”, um governo ético é aquele que
disponibiliza recursos financeiros para todos os setores públicos, promovendo
uma igualdade de oportunidades a todos os cidadãos. Sob essa óptica, torna-se
evidente que o Brasil não é um exemplo do pensamento desse teórico, visto que
negligencia as dificuldades enfrentadas pelos portadores de doenças mentais,
submetendo-os à periferia da cidadania.
Fica exposta, portanto, a necessidade de
medidas para mitigar o estigma associado aos transtornos psíquicos. Destarte,
as Secretarias de Educação devem desenvolver projetos nas escolas, por meio de
palestras e de dinâmicas educativas, levando médicos e pacientes para debaterem
sobre o preconceito enfrentado no cotidiano, uma vez que o depoimento
individual sensibiliza os estudantes, com a finalidade de ultrapassar
estereótipos negativos. Igualmente, o Ministério da Fazenda deve redistribuir
as verbas, priorizando as áreas da psiquiatria e psicologia, direcionando
maiores investimentos nesse setor negligenciado pelo Estado. Por fim, será
possível criar um país mais democrático, afastando a realidade dos absurdos
retratados na obra da escritora Daniela Arbex.